Perda gestacional, o luto invisível

Lidar com os desafios mentais e físicos, pode fazer com que a perda seja ainda mais desgastante

Todos que perdem alguém que amam normalmente têm uma foto, uma peça de roupa, conversas, momentos, histórias e relatos mais palpáveis da importância que aquela pessoa teve antes de partir. Com a perda gestacional essa visível lembrança muitas vezes não existe.

Embora esse luto seja invisível para a maior parte das pessoas, ele deixa uma imensa lacuna naquela casa, família, berço, ventre… um buraco tão grande e visível quanto a perda das pessoas que chegaram a nascer e a viver no mundo aqui fora.

Antes de eu ter o Mateus, eu perdi três gravidezes. Cada qual com sua cicatriz, com sua dificuldade, com seu tempo, com sua dor. Todas doeram muito e nenhuma me preparou para a outra. Quem é mãe sabe que cada filho é único e foi desta forma com a perda dos meus três anjos.

Como profissional e mãe que já viveu a dor destas perdas, percebo que o tema é pouco compreendido pela sociedade.

Viviana Madisson

Talvez o que torne ainda mais difícil a perda gestacional seja que neste luto invisível, existe não somente os desafios mentais de enfrentar a vida sem a pessoinha que tanto esperávamos, mas os desafios físicos de não ter dado a luz ao seu sonho e mesmo assim, ver seu corpo voltando ao normal, mesmo que a mente nunca mais seja a mesma.

Como profissional e mãe que já viveu a dor destas perdas, percebo que o tema é pouco compreendido pela sociedade. Como o luto é invisível, o senso comum tende a achar que o processo da perda acaba na saída do hospital, mas se é a perda de um filho é algo tão difícil, porque seria só porque ele ainda não nasceu? Como se fosse possível medir o amor pelo tempo de convivência com aquele pedaço de nós que se foi tão precocemente.

E quando me refiro ao senso comum, lembro de frases que são comuns de serem ditas às mães que passam pelas perdas gestacionais, como “logo você arruma outro”, “continuem tentando”, “não chore”, entre outras. Faz parte da saúde mental da mãe, do pai e de toda a família, o período do luto, do acolhimento e do reconhecimento da perda dolorida e visível.

Embora falemos muito do sofrimento da mãe que perde seu bebê, não podemos esquecer ou minimizar o que os pais sofrem também. Sobretudo porque a sociedade lhes cobra uma força física muito maior do que a nós, mães e mulheres. Os pais sofrem calados muitas vezes, sofrem tendo que dar apoio a todos e ainda sim tendo que ficar fortes e firmes na frente de todos.

A perda gestacional precisa ser falada porque é absolutamente normal o impacto emocional da perda de um bebê, de um filho.

Viviana Madisson

Sofrem porque dizem que homem não chora e o choro tem que ser por dentro, de forma silenciosa e cortante. Sofrem porque muitas vezes suas esposas estão no hospital ainda e cabe a eles, velar e sepultar um filho, um amor e um sonho. Fisicamente os pais sofrem sozinhos quase sempre.

É importante que os profissionais da saúde que realizam os primeiros atendimentos com os pais saibam reconhecer e compreender o tamanho deste luto. A subjetividade e a complexidade desta perda precisam de um acompanhamento primário por parte destes profissionais, de uma sensibilização por parte da família e de um acompanhamento psicológico para que possa ser superado e validado de acordo com seu real significado.

Acontece muito em famílias que enfrentam perdas gestacionais da mãe não poder participar dos sepultamentos por estarem hospitalizadas, o que dificulta ainda mais a consciência da perda. É importante que a família ajude com momentos de concretização e elaboração do luto e entendimento da perda, para que a saúde psíquica da mãe esteja preparada para o momento de tamanha dor e para a superação dele quando for o caso.

A perda gestacional precisa ser falada porque é absolutamente normal o impacto emocional da perda de um bebê, de um filho. Pais que perdem seus filhos antes de nascerem sofrem tanto quanto aquelas que já os têm em seus braços.

O luto daqueles que perdem um filho – mesmo que ainda invisível para a sociedade – será sempre visível em seus corações.

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