Parece que a vida tem ciclos que são muito mais intensos que outros. Ciclos estes que são como verdadeiras tempestades nas quais não se sabe como chegaram e muito menos se vai conseguir sobreviver a eles, mas no final, saímos sempre fortalecidos.
E é sobre a tempestade mais recente que passei que quero compartilhar com você.
Eu tenho 33 anos, sou casada há quase 5 anos e o meu marido e eu chegamos “naquela fase” que, realmente, a necessidade de crescer a família se torna algo presente, momento em que os dois sentem esta necessidade. É muito mais que social, sei lá ao certo o que é, mas é como se realmente estivéssemos prontos para crescer nossa família.
E como muito casais, nós não fomos diferentes. No inicio de 2017 paramos os meios contraceptivos e “oficialmente” começamos a tentar engravidar. Nada desesperados, principalmente porque após anos usando anticoncepcional o corpo leva um tempo para funcionar “naturalmente” e além disso, estava mudando a minha carreira…
Enfim, no mês de março de 2018 o meu corpo começou a reagir diferente… Coisas que, até então, nunca tinham me acontecido antes passavam a fazer parte da minha rotina. Seios muito mais fartos e doloridos, sono numa escala desproporcional e o olfato mais apurado do que de cão! E após alguns dias de atraso vinha a confirmação, estávamos grávidos!
Nossa, que alegria!! A vontade era de gritar aos 7 ventos e a todas as pessoas que passavam sobre a felicidade que estávamos vivenciando. Quantas coisas para pensar e se planejar para o neném vir com o máximo de saúde! Com certeza mudar a alimentação e rotina de exercícios, tirar o pé do acelerador, tomar vitaminas, ter mais horas de descansos, encontrar um bom obstetra que atendesse ao nosso convênio, e toda a expectativa que crescia junto com o nosso bebê.
Quando contamos para as nossas famílias foram verdadeiras festas! Todos felizes com a notícia! Lembro-me do meu cunhado pulando para abraçar o meu marido (que é um pouco alto, por sinal), nossos pais enchendo os olhos de lágrimas por saberem que receberiam mais um neném na família, e toda a comemoração que o momento merece.
Iniciamos nossa jornada e juntos a nossa união ficava ainda mais forte. E olha que nós já tínhamos um bom casamento… Nossa união passava para um novo nível, além de marido e mulher nos tornávamos pais! Pais de alguém que ainda estava a caminho…
E sem mais nem menos, nossa tempestade começou… Parecia como um vento, e veio de uma forma avassaladora. A tempestade começou com alguns problemas familiares e se tornou em ventos mais fortes no dia 19 de abril, numa quinta feira à noite.
Estava esperando minha paciente da noite quando senti uma umidade diferente. Quando fui ao banheiro, sangue!! Gelei!!! Na hora aqueles pensamentos sem lógica aparecem e só pensei “estou grávida, como pode ter sangue?”. E como instinto achei melhor cancelar minhas consultas da noite e ir na emergência.
Ao chegar ao hospital, após algum tempo na espera e os minutos parecendo eternidades, enfim, passamos por uma jovem médica, que após me examinar tentou nos acalmar, dizendo que parecia estar tudo bem, mas teríamos que confirmar no ultrassom, no dia seguinte.
Novamente mais horas infinitas, que insistiam em não passar, e o sangramento, mesmo que de leve, me aterrorizando a cada vez que ia ao banheiro.
Enfim chegou a hora do exame, e infelizmente tivemos, talvez, um dos piores encontros com médicos da minha vida. A pessoa sem tato algum, totalmente insensível, nos faz questionar o que está fazendo nesta profissão se não tem amor pelo que faz. Durante a ultrassom soubemos, nosso bebê não cresceu nada em 10 dias!!!
Cheguei a pensar que poderia ser porque ele tinha o seu próprio tempo, ou que poderia ser um pouco menor. Nestas horas a esperança sempre bate a porta mais forte, porém o obstetra confirmou! Para este bebê não há esperança. E assim, de um dia para o outro, o nosso chão sumiu sob os nossos pés e todo o sonho ruiu em apenas algumas palavras: “aborto espontâneo”.
E para fechar, a sentença pronunciada pelo médico: “podemos esperar o seu corpo reagir ou podemos te internar para a curetagem”. Sem chãos, como nós poderíamos tomar qualquer decisão naquele momento?!
E assim, sem rumo, saímos do consultório. Ao entramos no carro, as lágrimas vieram numa intensidade sem igual, e o meu marido e eu apenas nos abraçamos por longos minutos deixando o indescritível falar por nós… Estávamos totalmente imersos na tempestade e nem vimos ela se aproximando.
A hora de tomar decisões chegou! E a nossa saga de encontramos um médico de confiança chegou ao fim quando nos deparamos com um senhor, com olhar simpático e cabelos grisalhos, que não apenas nos acolheu no nosso sofrimento, como também nos deu esperança. Foi nas palavras dele que recebemos as orientações necessárias sobre os procedimentos que precisávamos fazer para manter a minha saúde, pois infelizmente a jornada do nosso neném foi mais rápida que desejávamos e tínhamos que focar no que era mais importante.
E foi num sábado que fizemos a curetagem. Com os nossos corações dilacerados, os nossos pais ao nosso lado e totalmente desorientados fomos para o fim desta gravidez.
Acredite, não é fácil e nenhum casal deveria passar por isso. Sei que a “justificativa” seja para evitar algo pior no futuro, mas nem por isso é menos doloroso. Até uma metáfora que usei foi como se tivessem arrancado o meu coração pelas costas a machadadas, como aqueles rituais que os vikings realizavam…
Mesmo apesar disso tudo, nós sobrevivemos! Nos tornamos pais, mesmo que por algumas semanas, do nosso pequeno “feijãozinho” e ele cumpriu sua missão de nos unir, tornando uma família ainda mais forte. E mesmo apesar de ainda estar bem nublado, sabemos que a tempestade está chegando ao fim.
E se você está passando ou passou por algo similar, lembre-se, como Renato Russo já dizia: Mas é claro que o Sol vai voltar amanhã mais uma vez. Eu sei! Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã. Espera que o Sol já vem.
Pois o que não nos mata, nos fortalece…

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